ACIDENTES OFÍDICOS

Paulo Sérgio Bernarde

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Anualmente ocorrem aproximadamente 28.000 acidentes ofídicos no Brasil, apresentando uma letalidade de 0,4%. Entretanto, esses dados epidemiológicos talvez não correspondam à realidade devido às subnotificações. O número de óbitos gira entorno de 300 por ano. Antes da produção e distribuição do soro anti-ofídico por Vital Brazil em 1901, era estimada uma letalidade de 25% entre as vítimas de acidentes ofídicos no Estado de São Paulo. Já em 1906 houve uma redução de 50% dos óbitos e 40 anos depois a letalidade variava entre 2,6 a 4,6%.

A maioria destes acidentes ocorre com trabalhadores rurais do sexo masculino com idade entre 15 a 49 anos e os membros inferiores são os mais atingidos. As serpentes não apresentam interesse em picar uma pessoa e, quando fazem isso, é para se defenderem. E no Brasil nenhuma espécie peçonhenta vem intencionalmente até uma pessoa para picá-la, são as pessoas que não percebem a presença da cobra e se aproximam dela. Por isso, toda atenção é recomendada quando estamos nos habitats desses animais.

No Brasil ocorrem aproximadamente 380 espécies de serpentes, sendo 60 peçonhentas. O termo "peçonhento" se refere a um animal que apresenta veneno e algum tipo de mecanismo que possibilita a inoculação em outro organismo. As serpentes peçonhentas apresentam glândulas de veneno desenvolvidas associadas a um aparelho inoculador (dentes), cuja função primária é a subjugação (matar) e digestão de suas presas. Apesar da função primária do veneno das serpentes ser a captura de suas presas, ele pode ser usado secundariamente como defesa, causando acidentes em seres humanos. 

São quatro grupos de serpentes peçonhentas que podem causar acidentes ofídicos no Brasil: 

 

Grupo I - Acidente Botrópico: Gêneros Bothrops e Bothrocophias (conhecidas popularmente como jararacas, caiçaca, urutu-cruzeiro, jararacuçu, surucucu, cotiara, boca-de-sapo) (Fig. 1).

Fig. 1. Jararaca ou Caissaca (Bothrops moojeni). Foto por Paulo S. Bernarde.

 

Grupo II - Acidente Crotálico: Gênero Crotalus (conhecidas popularmente como cascavéis) (Fig. 2).

Fig. 2. Cascavel (Crotalus durissus). Foto por Paulo S. Bernarde.

 

Grupo III - Acidente Laquético: Gênero Lachesis (conhecidas popularmente como pico-de-jaca, bico-de-jaca, surucucu-pico-de-jaca e surucutinga) (Fig. 3).

Fig. 3. Surucucu-pico-de-jaca (Lachesis muta). Foto por Paulo S. Bernarde.

 

 Grupo IV - Acidente Elapídico: Gêneros Micrurus e Leptomicrurus (conhecidas popularmente como corais-verdadeiras) (Fig. 4). 

Fig. 4. Coral-verdadeira (Micrurus lemniscatus). Foto por Paulo S. Bernarde.

 

FAMÍLIAS DAS SERPENTES PEÇONHENTAS

FAMÍLIA ELAPIDAE: Os gêneros Micrurus e Leptomicrurus pertencem a Família Elapidae e apresentam dentição proteróglifa (dentes inoculadores relativamente pequenos e fixos, localizados anteriormente na maxila superior). São 29 espécies de corais-verdadeiras no Brasil.

FAMÍLIA VIPERIDAE: Os gêneros Bothrops, Bothrocophias, Crotalus e Lachesis pertencem a Família Viperidae e apresentam dentição solenóglifa (dentes inoculadores localizados anteriormente na maxila superior, que se projetam num ângulo de 90º no momento do bote). São 28 espécies de jararacas, surucucus e cascavéis no Brasil.

 

IDENTIFICAÇÃO DE SERPENTES PEÇONHENTAS

Existe uma confusão entre os leigos e em alguns livros no Brasil em relação ao reconhecimento das serpentes peçonhentas, devido o fato das informações sobre a distinção destas das não peçonhentas terem sido baseadas na fauna de serpentes da Europa. A aplicação de certas regras como pupila do olho (vertical ou redonda), escamas dorsais (carenadas ou lisas), forma da cabeça (triangular ou arredondada) e tamanho da cauda (se afila bruscamente ou se é longa) não são aplicáveis a ofiofauna brasileira devido a inúmeras exceções.

Para o reconhecimento de serpentes peçonhentas, observa-se se a mesma apresenta a fosseta loreal (Fig. 5), no caso dos viperídeos. A fosseta loreal é um pequeno orifício localizado lateralmente na cabeça entre o olho e a narina, com função de orientação térmica. Este órgão sensorial termorreceptor, permite que os viperídeos localizem suas presas pela detecção da temperatura das mesmas.

 

  Fig. 5. Fosseta loreal. Fotos por Paulo S. Bernarde.

 

Sendo um viperídeo, se a serpente possuir um guizo ou chocalho na porção terminal da cauda, trata-se de uma cascavel (Crotalus durissus) (Fig. 2).

 Se a serpente apresentar a ponta da cauda com as escamas eriçadas e o formato das escamas dorsais parcialmente salientes, parecendo a "casca de uma jaca", trata-se de uma surucucu-pico-de-jaca (Lachesis muta) (Fig. 3).

 Se a serpente apresentar a ponta da cauda normal, trata-se de uma espécie de jararaca (Bothrops spp. ou Bothrocophias sp.) (Fig. 1).

 Os viperídeos ainda apresentam escamas dorsais carenadas (parecendo "casca de arroz") (Fig. 6) e a pupila do olho elíptica ou vertical (Fig. 5). Entretanto, espécies não peçonhentas como a jiboia (Boa constrictor), salamanta (Epicrates cenchria) e a dormideira (Dipsas indica) apresentam a pupila do olho também vertical por serem de hábitos noturnos. Alguns colubrídeos (ex. Cobra-d´´agua - Helicops spp. e a Papa-ovo Pseustes spp.) também apresentam escamas carenadas e não são peçonhentos.

 

 

 Fig. 6. Escamas carenadas de jararaca. Fotos por Paulo S. Bernarde.

 

 As cobras corais (Micrurus spp. e Leptomicrurus) (Fig. 7), pertencentes a família dos elapídeos, não apresentam a fosseta loreal, possuem um olho pequeno e as escamas dorsais são lisas (não carenadas). Quando uma serpente apresentar o padrão de colorido tipo "coralino", com anéis pretos, amarelos (ou brancos) e vermelhos, a mesma deve ser tratada como uma possível coral-verdadeira. Algumas corais amazônicas não apresentam anéis coloridos (vermelho, laranja ou amarelo) pelo corpo (ex. M. albicinctus).

 

 Fig. 7. Corais-verdadeiras. Fotos por Paulo S. Bernarde.

     

CONFUSÃO COM OS NOMES POPULARES

Poucas vítimas levam até o hospital a serpente causadora do acidente, sendo que o reconhecimento do gênero causador se faz pelo diagnóstico clínico (observação dos sintomas) na maioria das vezes. Nota-se aqui o perigo de confusão com os nomes populares e a associação destes com os nomes científicos.

Uma mesma espécie pode ter mais de um nome popular (ex. Bothrops atrox e B. moojeni podem ser chamadas de jararaquinha-do-rabo-branco, jararaca e jararacão de acordo com o tamanho do espécime). Outro exemplo é B. atrox que em várias regiões da Amazônia é conhecida como jararaca, mas no Estado do Acre e em algumas regiões do Amazonas recebe o nome de surucucu, e o nome surucucu é apresentado em livros para designar a Lachesis muta (Que é conhecida na Amazônia como Pico-de-jaca ou Surucucu-pico-de-jaca). Em alguns lugares do Amazonas B. atrox é conhecida também como combóia.

A serpente Bothrops bilineatus é conhecida como bico-de-papagaio e papagaia, dependendo da região e, esses mesmos nomes populares são usados também para designar duas espécies não-peçonhentas (Corallus batessi e C. caninus) (Fig. 8), que também apresenta coloração verde e o hábito arborícola. No Estado do Acre não ocorre a cascavel (Crotalus durissus), entretanto, eventualmente a surucucu-pico-de-jaca (Lachesis muta) é chamada de cascavel por moradores da floresta (ribeirinhos e seringueiros).  

 Fig. 8. Bico-de-papagaio ou Papagaia (Corallus batesii) - Não-peçonhenta. Foto por Paulo S. Bernarde.

 

CARACTERÍSTICAS DOS ACIDENTES

 

ACIDENTE BOTRÓPICO

GÊNEROS: Bothrops e Bothrocophias (Figuras 9-18).

NOMES POPULARES: Jararaca, jararaca-pintada, jararaca-da-Amazônia, surucucu, caiçaca, jararacuçu, cotiara, urutu-cruzeiro ou cruzeira, jararaca-bicuda, bico-de-papagaio ou papagaia, jararaquinha-do-rabo-branco.

INCIDÊNCIA: Aproximadamente 90,5% dos acidentes ofídicos.

LETALIDADE: 0,3%.

DISTRIBUIÇÃO GEOGRÁFICA: Todo o Brasil.

ATIVIDADES PRINCIPAIS DO VENENO: proteolítica (atividade inflamatória aguda), coagulante e hemorrágica.

SINTOMAS DA VÍTIMA: dor, sangramento no local da picada, edema (inchaço) no local da picada e pode evoluir por todo membro, hemorragias (gengivorragia, hematúria, sangramento em ferimentos recentes), equimose, abscesso, formação de bolhas e necrose. Hipotensão e choque periférico em acidentes graves. Tempo de coagulação sanguínea prolongado. Risco de insuficiência renal aguda.

SORO: Anti-botropico ou anti-botropicolaquetico ou anti-botropicocrotalico.  

 Fig. 9. Jararaca ou Surucucu (Bothrops atrox). Foto por Paulo S. Bernarde.

 

Fig. 10. Jararaquinha-do-rabo-branco (Juvenil de Bothrops atrox). Foto por Paulo S. Bernarde.

 

Fig. 11. Jararacuçu  (Bothrops jararacussu). Foto por Paulo S. Bernarde.

 

Fig. 12. Jararaca ou Caissaca  (Bothrops moojeni). Foto por Paulo S. Bernarde.

 

Fig. 13. Jararaca-pintada ou Boca-de-sapo  (Bothrops matogrossensis). Foto por Paulo S. Bernarde.

 

Fig. 13. Jararaca-pintada ou rabo-de-osso  (Juvenil de Bothrops matogrossensis). Foto por Paulo S. Bernarde.

 

Fig. 14. Urutu-cruzeiro ou Cruzeira  (Bothrops alternatus). Foto por Paulo S. Bernarde.

 

Fig. 15. Urutu-cruzeiro ou Cruzeira  (Bothrops alternatus). Foto por Paulo S. Bernarde.

 

Fig. 16. Jararaca-verde ou Bico-de-papagaio  (Bothrops bilineatus bilineatus). Foto por Paulo S. Bernarde.

 

Fig. 17. Jararaca-verde ou Papagaia  (Bothrops bilineatus smaragadinus). Foto por Paulo S. Bernarde.

 

Fig. 18. Jararaca-nariguda  (Bothrocophias hyoprora). Foto por Paulo S. Bernarde.

 

 

ACIDENTE CROTÁLICO

GÊNERO: Crotalus (Figs. 19 e 20).

NOMES POPULARES: Cascavel, boicininga e maracambóia.

INCIDÊNCIA: Aproximadamente 7,7% dos acidentes ofídicos.

LETALIDADE: 1,8%.

DISTRIBUIÇÃO GEOGRÁFICA: Ocorrem nas áreas abertas (campos, cerrados e caatinga) em todas regiões do Brasil. Na Amazônia, a cascavel está presente nas manchas de campos e cerrado em Rondônia, Amazonas, Pará, Amapá e Roraima.

ATIVIDADES PRINCIPAIS DO VENENO: neurotóxica, miotóxica e coagulante.

SINTOMAS DA VÍTIMA: edema discreto ou ausente, dor discreta ou ausente, parestesia, ptose palpebral, diplopia, visão turva, urina avermelhada ou marrom. Insuficiência respiratória aguda em casos graves. Tempo de coagulação sanguínea prolongado.

SORO: Anti-crotálico ou anti-botropicocrotalico.  

 

Fig. 19. Cascavel  (Crotalus durissus). Foto por Paulo S. Bernarde.

 

Fig. 20. Cascavel  (Crotalus durissus). Foto por Paulo S. Bernarde.

 

GRUPO III ACIDENTE LAQUÉTICO

GÊNERO: Lachesis (Figs. 21 e 22).

NOMES POPULARES: Surucucu-pico-de-jaca, pico-de-jaca, bico-de-jaca e surucutinga.

INCIDÊNCIA: 1,4%.

LETALIDADE: 0,9%.

DISTRIBUIÇÃO GEOGRÁFICA: Amazônia e na Mata Atlântica, da Paraíba até o norte do Rio de Janeiro.

ATIVIDADES PRINCIPAIS DO VENENO: proteolítica (atividade inflamatória aguda), hemorrágica, coagulante e neurotóxica.

SINTOMAS DA VÍTIMA: semelhante ao acidente botrópico com dor, edema e equimose, formação de bolhas, gengivorragia e hematúria. Difere do acidente botrópico devido ao quadro neurotóxico: bradicardia, hipotensão arterial, sudorese, vômitos, náuseas, cólicas abdominais e distúrbios digestivos (diarréia). Risco de insuficiência renal aguda.

SORO: Anti-botropicolaquetico.  

 

Fig. 21. Surucucu-pico-de-jaca  (Lachesis muta). Foto por Paulo S. Bernarde.

 

 Fig. 22. Surucucu-pico-de-jaca  (Lachesis muta). Foto por Paulo S. Bernarde.

 

ACIDENTE ELAPÍDICO

GÊNEROS: Micrurus e Leptomicrurus (Figuras 23-26).

NOMES POPULARES: Coral-verdadeira, cobra-coral ou coral.

INCIDÊNCIA: Menos de 1% dos acidentes ofídicos.

DISTRIBUIÇÃO GEOGRÁFICA: Todo o Brasil.

ATIVIDADE PRINCIPAL DO VENENO: neurotóxica.

SINTOMAS DA VÍTIMA: dor local, parestesia, ptose palpebral, diplopia, sialorréia (abundância de salivação), dificuldade de deglutição e mastigação, dispnéia. Risco de insuficiência respiratória nos casos graves.

SORO: Anti-elapídico.  

 

Fig. 23. Coral-verdadeira  (Micrurus lemniscatus). Foto por Paulo S. Bernarde.

 

Fig. 24. Coral-verdadeira  (Micrurus hemprichii). Foto por Paulo S. Bernarde.

 

Fig. 25. Coral-verdadeira  (Micrurus remotus). Foto por Paulo S. Bernarde.

 

Fig. 26. Coral-verdadeira  (Micrurus surinamensis). Foto por Paulo S. Bernarde.

 

PRIMEIROS SOCORROS

Manter a vítima calma.

Evitar esforços físicos, como correr, por exemplo.

Procurar um hospital o mais rápido possível, procurando tentar saber antes se o mesmo possui soros anti-ofídicos.

Se possível, levar a serpente causadora do acidente pra facilitar o diagnóstico.

Lavar o local da picada.

Não fazer torniquete ou garrote no membro picado, pois poderá agravar o acidente, aumentando a concentração do veneno no local.

Não fazer perfurações ou cortes no local da picada, porque pode aumentar a chance de haver hemorragia ou infecção por bactérias.

Evitar curandeiros e benzedores, lembrando que o rápido atendimento em um hospital é fundamental para a reversão do envenenamento.

Não ingerir bebidas alcoólicas.

 

PREVENÇÃO DE ACIDENTES

Sempre que for andar nas florestas, andar calçado. Cerca de 80% das picadas acontecem do joelho para o pé, sendo 50% na região do pé. O uso de botinas ou botas preveniria melhor do que um tênis.

Evitar acúmulo de lenhas, entulhos e lixos próximos a moradias humanas.

Usar luvas de couro ao remover lenhas.

Não colocar as mãos dentro de buracos do solo ou de árvores.

Olhar para o chão quando estar andando em trilhas.

Procurar não andar fora das trilhas.

Ao atravessar troncos caídos, olhar sobre ou atrás dele.

Evitar andar a noite, pois é o horário de maior atividade das serpentes venenosas.

Ao sentar-se no chão, olhar primeiro em volta.

Ao encontrar uma cobra, avise o resto da turma sobre onde ela se encontra e procure desviar-se dela. Lembre-se de que ela está em seu habitat natural e é você quem é o invasor.

 

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