PROJETO                                                                                 

História natural de Bothrops atrox (Linnaeus 1758) e de Bothrops bilineatus smaragdinus Hoge 1966 (Serpentes: Viperidae) no Alto Juruá

 

EQUIPE:

Coordenador: Dr. Paulo Sérgio Bernarde

Mestrando: Wirven Lima da Fonseca*

Graduandos:

Andesson de Souza Oliveira

Radraque Rodrigues Correa

 

* Parte deste projeto corresponde a sua Dissertação de Mestrado "Ecologia de Bothrops bilineatus smaragdinus (Serpentes: Viperidae) no Oeste da Amazônia, Acre - Brasil" no Programa de Pós-Graduação em Ecologia e Manejo de Recursos Naturais da UFAC.   

RESUMO: Informações obtidas durante estudos sobre a atividade, dieta, comportamento e uso do habitat por serpentes peçonhentas podem contribuir para uma melhor compreensão das circunstâncias epidemiológicas dos acidentes ofídicos e, assim serem utilizadas na profilaxia do ofidismo. Poucos são os estudos conduzidos sobre a história natural das espécies de serpentes no Alto Juruá, que podem contribuir para uma melhor compreensão da ecologia. O projeto tem por objetivo estudar a história natural de duas espécies de serpentes peçonhentas (Bothrops atrox e B. bilineatus smaragdinus). Para avaliar a ocorrência dessas serpentes com as variáveis ambientais (altura do substrato de caça; disponibilidade de presas, temperatura, umidade relativa do ar e pluviosidade) o estudo é realizado em uma trilha de 800 m que margeia três lagos e duas outras trilhas de 600 m nessa mesma floresta. Mensalmente é realizado o método de Procura Limitada por Tempo (68 horas por mês) durante a noite para o encontro das serpentes, que consiste em se deslocar lentamente em um transecto, procurando por serpentes visualmente expostas.

          

                               Espécime adulto de Bothrops atrox em caça de espera no chão                           Espécime adulto de Bothrops bilineatus smaragdinus em caça de espera sobre a vegetação.

 

OBJETIVO GERAL: O projeto tem por objetivo estudar a história natural das serpentes Bothrops atrox e de B. bilineatus smaragdinus na região do Alto Juruá, Acre.

Objetivos Específicos:

- Caracterizar como as serpentes Bothrops atrox e B. bilineatus smaragdinus utilizam o habitat em uma área de floresta.
- Avaliar quais variáveis ambientais (altura do substrato de caça, disponibilidade de presas, pluviosidade, temperatura e umidade relativa do ar) influenciam na ocorrência de Bothrops atrox e B. bilineatus smaragdinus.
- Determinar os hábitos alimentares das serpentes Bothrops atrox e B. bilineatus smaragdinus no Alto Juruá.
- Identificar quais espécies de árvores que são utilizadas pela serpente Bothrops bilineatus smaragdinus.
- Comparar as diferenças entre o peso e o comprimento do corpo entre as serpentes Bothrops atrox e B. bilineatus smaragdinus.
- Caracterizar o dimorfismo sexual entre os machos e fêmeas de Bothrops atrox e B. bilineatus em relação ao peso e o comprimento do corpo e da cauda.
- Coligir quando observado, informações sobre comportamento de caça, de defesa, reprodutivo e de predadores das serpentes Bothrops atrox e B. bilineatus smaragdinus.

NOMES POPULARES REGIONAIS DESTAS SERPENTES

Os indivíduos juvenis e subadultos de Bothrops atrox são conhecidos como "Jararaca". Durante a atividade de caça podem utilizar também arbustos até 1,5 m de altura (Ver Oliveira & Martins 2001; Turci et al. 2009). Os juvenis apresentam a ponta da cauda clara que utilizam para atrair suas presas durante a caça (Engodo caudal),

Curiosamente as pessoas que apresentam mais contato com as florestas e o campo, dizem que sua picada "faz sangrar", o que é um dos sinais mais observados no envenenamento pelos juvenis desta espécie.

Bothrops atrox é a principal serpente causadora de acidentes no Alto Juruá.

Espécimes adultos de Bothrops atrox são conhecidos principalmente como "Surucucu", outros nomes utilizados são "Jararacuçu" (Jararaca grande), "Surucucu-do-barranco" (Associando a espécie aos ambientes aquáticos onde costuma ser mais frequente) e "Boca-podre" (associando uma das consequências que são mais observadas na picada por espécimes grandes desta serpente).

Durante a atividade de caça é observada no chão.

O nome popular "Surucucu" em várias regiões da Amazônia é aplicado para a serpente Bothrops atrox e não para Lachesis muta. Esta última é conhecida principalmente como "Pico-de-jaca" ou "Bico-de-jaca".

Devemos lembrar que os nomes populares correspondem aos utilizados pelas populações do campo e das florestas para designarem os seres vivos que convivem com eles.

A serrpente Bothrops bilineatus smaragdinus é conhecida como "Papagaia" e esse mesmo nome popular também é utilizado para designar outras espécies de serpentes que não são peçonhentas (Corallus batesii, Oxybelis fulgidus e Philodryas viridissima).

Bothrops bilineatus smaragdinus é a segunda espécie de serpente causadora de acidentes na região do Alto Juruá, sendo responsável por aproximadamente 5% destes.

 

ENGODO CAUDAL

    Espécimes de Bothrops bilineatus smaragdinus e juvenis de Bothrops atrox apresentam a ponta da cauda distinta do corpo que empregam na tática do "engodo caudal" durante a caça de espera. Elas realizam movimentos sinuosos, que podem atrair alguns animais (e.g., anfíbios) que confundem com uma larva. Quando um anfíbio é atraído para próximo do alcance de seu bote, o mesmo pode ser predado pela serpente. Os indivíduos adultos de B. b. smaragdinus continuam empregando a tática do engodo caudal frequentemente e também apresentam a ponta da cauda de cor diferente do corpo (branca ou amarronzada). Uma das suas presas é a perereca Osteocephalus taurinus, um Hylidae frequente nos galhos das árvores destas floresta em determinados períodos do ano.

Potenciais presas (roedor e anfíbio Osteocephalus taurinus) e espécimes de Bothrops bilineatus smaragdinus em caça de espera.

  

Bothrops bilineatus smaragdinus: indivíduo com a ponta da cauda branca e outro amarronzada.

Sequência de Bothrops bilineatus smaragdinus caçando utilizando a técnica de engodo caudal.

Vídeo de Bothrops bilineatus smaragdinus caçando utilizando a técnica de engodo caudal.

SUBSTRATO DE ATIVIDADE

    Indivíduos juvenis de Bothrops atrox são encontrados principalmente sobre a vegetação (arbustos, troncos caídos), provavelmente como uma forma de evitar predadores que caçam no chão (Veja Oliveira & Martins 2001 e Turci et al. 2009).

              

Foto e vídeo de juvenil encontrado de noite sobre tronco de árvore caído.

    A serpente Bothrops bilineatus smaragdinus foi encontrada em atividade de caça em altura mínima de 30 cm e até 18 m. Geralmente quando está caçando de espera fica em uma posição com a cabeça direcionada para o tronco da árvore. Pode continuar em atividade ao amanhecer até pelo menos 10:00 horas da manhã. Podendo permanecer no mesmo local durante o repouso diurno ou deslocar-se para outro.

UM POUCO SOBRE A METODOLOGIA

    Nessa pesquisa estamos utilizando o método de procura limitada por tempo, que consiste em deslocar-se em uma trilha lentamente procurando por serpentes que estejam expostas visualmente. Os anfíbios anuros encontrados no chão e sobre a vegetação estão sendo contabilizados para avaliarmos a disponibilidade de presas. Outras espécies de serpentes também estão sendo registradas para termos uma ideia da abundância dessas duas jararacas em relação as demais que ocorrem simpatricamente.

       

Algumas outras serpentes encontradas nas trilhas: Cobra-d'água (Helicops angulatus), Cobra-cipó (Philodryas argentea) e Coral-verdadeira (Micrurus surinamensis).

    Em uma trilha (I), os espécimes não são coletados e nem incomodados, apenas observados, fotografados e registrados. Estamos utilizando a técnica de marcas naturais (Ver Sazima 1988) para individualizar as serpentes e poder reencontrá-las (coloração das laterais da cabeça, do ventre e da ponta da cauda). Nem sempre é possível identificar o indivíduo, exemplo um observado a 18 m de altura. Essa trilha de 800 m é marcada a cada 10 metros, assim marcamos a metragem de cada encontro, onde a árvore é marcada também para futura identificação da espécie e o ponto de georreferenciamento é anotado. Assim podemos ter uma ideia da distribuição das duas espécies de jararacas nas três trilhas. Com uma trena laser medimos a altura que a serpente se encontra. Nas trilhas II e III os espécimes são coletados e eutanasiados para serem coligidos informações sobre o sexo, comprimento, peso, dieta e reprodução.

 

Espécime do metro 90 encontrado em abril e reencontrado em junho em árvores diferentes e próximas.

CORRELAÇÃO COM ACIDENTES OFÍDICOS

    Outro projeto de pesquisa em desenvolvimento na região (Serpentes Peçonhentas, Acidentes Ofídicos e Estudo Etnoherpetológico em Cruzeiro do Sul e Região), observou uma associação de casos de acidentes ofídicos durante a atividade de extrativismo de algumas palmeiras (Principalmente do Açaí Euterpe precatoria). Dentre eles, dois casos onde espécimes adultos de Bothrops atrox (1,5 m) estavam no chão na base da palmeira de açaí (onde contém frutos caídos e podem atrair roedores e marsupiais) e causaram envenenamento nos coletores. Outros dois, foram coletores que estavam escalando o tronco do açaí em alturas de 4 e 8 m, sendo picados por Bothrops bilineatus smaragdinus que estavam em galhos de árvores ao lado da palmeira. Informações durante esse estudo sobre história natural desses dois viperídeos poderão contribuir para melhor compreensão das circunstâncias dos acidentes ofídicos na região.

 

Espécime de Bothrops bilineatus smaragdinus se deslocando a noite sobre folha de palmeira e outro caçando de espera em galho próximo a palmeira.


 

 

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