CORAIS (FALSAS & VERDADEIRAS) DO BRASIL

     QUEM SÃO AS CORAIS?

    No Brasil, são chamadas popularmente de cobra-coral e de coral as espécies de serpentes que apresentam padrão de anéis coloridos pelo corpo, ou mesmo apenas o corpo vermelho. São elas 32 espécies da família Elapidae (corais-verdadeiras) e 49 da família Dipsadidae (Falsas-corais). Além delas, temos duas espécies da família Colubridae (Simophis rhinostoma e Rhinobothryum lentiginosum) e a Anilius scytale (Família Aniliidae).

    Dentre as corais, costuma-se chamar de corais-verdadeiras aquelas que são peçonhentas e pertencentes a família Elapidae (Figura 1). A coloração vermelha presente nelas é uma forma de aposematismo. Aposematismo é uma forma de mecanismo de defesa que consiste em uma coloração de advertência para potenciais predadores.

Figura 1. Coral-verdadeira (Micrurus lemniscatus) - Elapidae. Espécie amplamente distribuída no Brasil. Foto: Paulo Bernarde.

 

    As falsas-corais são assim chamadas pelo fato de não serem peçonhentas e não estarem envolvidas em acidentes ofídicos graves. Essas espécies de serpentes estão nas famílias Aniliidae (Figura 2), Colubridae (Figuras  3 e 4) e Dipsadidae (Figura 5). A coloração vermelha nas falsas-corais é um mecanismo de defesa conhecido como mimetismo. O padrão de colorido pode confundir eventuais predadores pelo fato delas (mímico) parecerem com as corais-verdadeiras (modelo). Nem todas as espécies de falsas-corais apresentam um mimetismo bem elaborado com colorido bem semelhante a alguma espécie de coral-verdadeira, algumas apenas apresentam a coloração vermelha no corpo e os anéis (quando presentes) não imitam assim tão perfeitamente.

Figura 2. Falsa-coral (Anilis scytale) - Aniliidae. Ocorre na Amazônia e nas matas de galeria no Cerrado (GO e MT) e em matas úmidas na Caatinga (CE). Foto: Paulo Bernarde.

 

Figura 3. Falsa-coral (Simophis rhinostoma) - Colubridae. Ocorre no Cerrado e no Pantanal. Foto: Gabriel Horta.

 

Figura 4. Falsa-coral (Rhinobothryum lentiginosum) - Colubridae. Amazônia. Foto: Saymon de Albuquerque.

 

Figura 5. Falsa-coral (Erythrolamprus aesculapii) - Dipsadidae. Espécie amplamente distribuída no Brasil. Foto: Daniel Velho.

 

  Como identificar corais-verdadeiras e falsas-corais?!

    Não se recomenda que leigos tentem diferenciar as corais venenosas das falsas-corais, mantendo sempre a distância e o respeito por esses animais quando encontrá-los. Existem no Brasil 32 espécies de corais-verdadeiras e mais de 50 espécies de cobras que podem ser confundidas com as corais (as chamadas falsas-corais). Uma grande diversidade de corais está presente em nosso país e somente quem lida com esses animais adquire a experiência necessária para reconhecê-las corretamente.

A questão é para que deseja saber se ela é verdadeira ou não?

Se foi mordido saberá dentro de minutos. Acredito que não esteja aqui por este motivo. rs rs. Já deveria estar em um hospital e pelos sintomas que a vítima apresentar o médico poderá diagnosticar o tipo de envenenamento e a gravidade do mesmo.

    Se apareceu alguma na sua casa ou na área rural, saiba que elas estão presentes tanto no campo como nas áreas urbanas. Se foi na natureza, deixe ela seguir seu curso. Foi na sua casa, chame o órgão responsável pelo resgate de sua cidade.

    Quer ser herpetólogo? Procure as informações em livros, artigos e procure fazer cursos e estágios na área. Aqui pode ser um bom começo...

Apenas por curiosidade? Pode fotografar o animal e enviar para um especialista ou postar em algum grupo ou fórum na Internet pedindo a identificação. Pode também aprender mais sobre esses animais nesta página.

    Muitas “regras” que são apresentadas em documentários na TV são referentes à fauna dos Estados Unidos e não são aplicáveis na América do Sul. Muitos programas na TV simplesmente traduzem ao pé da letra e não explicam que tal "macete" é para a América do Norte onde tem apenas umas três espécies de corais (falsas e verdadeiras) e que não são as mesmas daqui.

    Outras características para tal diferenciação são baseadas em crendices populares e também não funcionam para distinguir as corais-verdadeiras (Elapidae) de todas as falsas-corais (Dipsadidae e Colubridae). Esses ditados populares não funcionam e de forma alguma são regras, uma vez que existirão exceções. Exemplos:

ERRADO: Muitos falam deste ditado “Vermelho com amarelo perto, fique esperto. Vermelho com preto ligado pode ficar sossegado”. Veja, por exemplo, a coloração das corais-verdadeiras Micrurus lemniscatus e M. surinamensis apresentando anéis vermelhos em contato com os pretos.

ERRADO: “Falsas-corais não apresentam anéis completos envolta do corpo”. Existem exceções como algumas falsas-corais (Erythrolamprus aesculapii e a Atractus latifrons) que apresentam anéis completos e também corais-verdadeiras (Leptomicrurus spp. e Micrurus albicinctus) que não apresentam os anéis característicos do padrão coralino.
   

Os especialistas (herpetólogos, técnicos em serpentários ou em laboratórios de ofiologia) lidam de forma constante com esses animais e assim adquirem certa experiência ao longo do tempo em reconhecer as espécies. Já quem não lida diariamente com serpentes apresenta uma maior probabilidade de cometer equívocos e assim favorecer um acidente ofídico ao manusear uma cobra-coral. Além disso, algumas falsas-corais apresentam dentição opistóglifa e podem causar envenenamento quando manuseadas, mas não acidentes graves.
 

 

 

Dentição áglifa: Presente em algumas falsas-corais, não apresentam dentes inoculadores de veneno.

 

Dentição opistóglifa: Presente em algumas falsas-corais, apresentam dentes inoculadores de veneno na região posterior da maxila superior.

 

Dentição Proteróglifa: Presente nas corais-verdadeiras, apresentam dois dentes inoculadores fixos de veneno na região anterior da maxila superior.

       

AS CORAIS-VERDADEIRAS

    As chamadas corais-verdadeiras (Elapidae) pertencem aos gêneros Micrurus e Leptomicrurus e apresentam a dentição do tipo proteróglifa (Figuras 6 e 7)  e são capazes de causar envenenamentos em seres humanos (Acidentes elapídicos - Ver Bucaretchi et al. 2006; Acidentes Ofídicos). A dentição proteróglifa consiste em dois dentes inoculadores fixos (imóveis) de veneno localizados na parte anterior do maxilar superior. A abertura bucal não ultrapassa um ângulo de 30° e as presas inoculadoras de veneno alcançam aproximadamente 2,5mm em uma coral de 90 cm, o que dificulta a mordida com envenenamento. Entretanto, os acidentes (tipo neurotóxico) podem acontecer (Ver Bucaretchi et al. 2006; Casais-e-Silva & Brazil 2009; Pardal et al. 2010), principalmente durante o manuseio, por isso não se deve manusear estes animais desnecessariamente e sem o devido cuidado técnico.

   

Figura 6. Dentição proteróglifa - Micrurus surinamensis. Foto: Breno Almeida.

Figura 7. Dentição proteróglifa - Micrurus surinamensis. Foto: Renato Gaiga.

    Nem todas as corais-verdadeiras apresentam o padrão coralino (Figura 8), algumas espécies amazônicas como a Micrurus albicintus (Figura 9) os anéis vermelhos estão ausentes. Outra exceção, também da Amazônia, é a Micrurus hemprichii (Figura 10) que apresenta anéis amarelos ou alaranjados ao invés de vermelhos. Veja também essas espécies amazônicas que fogem do padrão típico de coral: Leptomicrurus collaris, Leptomicrurus narduccii e Leptomicrurus scutiventris.

Figura 8. Coral-verdadeira (Micrurus lemniscatus). Foto: Paulo Bernarde.

 

Figura 9. Coral-verdadeira (Micrurus albicinctus) - Amazônia. Foto: Daniel Velho.

Figura 10. Coral-verdadeira (Micrurus hemprichii) - Amazônia. Foto: Paulo Bernarde.

        Apesar de serem peçonhentas, as corais (Figura 11) não apresentam a fosseta loreal (Figura 12) presente nas espécies da família Viperidae no Brasil e que são responsáveis pela maioria dos acidentes ofídicos (99% dos casos). A fosseta loreal é um orífício localizado lateralmente na cabeça entre a narina e o olho e apresenta função sensorial (Termo-orientação) (Ver Órgãos Sensoriais das Serpentes).

Figura 11. Corais-verdadeiras (Micrurus lemniscatus e M. hemprichii) - Note a ausência de fosseta loreal. Foto: Paulo Bernarde.

Figura 12. Fosseta loreal de Viperidae. Esse órgão está ausente nas corais. Foto: Paulo Bernarde.

    Existem 32 espécies de corais-verdadeiras registradas para o Brasil (Costa & Bérnils 2014) e temos espécies desta família presentes em todo o país. Apresentam tamanho pequeno a médio (até 1,5 m), conhecidas popularmente como corais ou corais-verdadeiras (outros nomes populares: cobra-coral, boicorá e ibiboboca). As corais possuem a cabeça oval, recoberta por escamas grandes (escudos cefálicos semelhantes aos dos colubrídeos e dipsadídeos), olhos pequenos e pretos, corpo cilíndrico com escamas dorsais lisas, cauda curta e roliça.Veja a lista abaixo na Tabela 1. Algumas espécies apresentam links para suas fotografias.

Tabela 1. Espécies de corais-verdadeiras (Família Elapidae) do Brasil.

ESPÉCIE

NOME POPULAR

Leptomicrurus collaris (Schlegel, 1837)

Coral-verdadeira, coral ou cobra-coral

Leptomicrurus narduccii (Jan, 1863)

Coral-verdadeira, coral ou cobra-coral

Leptomicrurus scutiventris (Cope, 1870)

Coral-verdadeira, coral ou cobra-coral

Micrurus albicinctus Amaral, 1926

Coral-verdadeira, coral ou cobra-coral

Micrurus altirostris (Cope, 1859)

Coral-verdadeira, coral ou cobra-coral

Micrurus annelatus (Peters, 1871)

Coral-verdadeira, coral ou cobra-coral

Micrurus averyi Schmidt, 1939

Coral-verdadeira, coral ou cobra-coral

Micrurus brasiliensis Roze, 1967

Coral-verdadeira, coral ou cobra-coral

Micrurus corallinus (Merrem, 1820)

Coral-verdadeira, coral ou cobra-coral

Micrurus decoratus (Jan, 1858)

Coral-verdadeira, coral ou cobra-coral

Micrurus diana Roze, 1983

Coral-verdadeira, coral ou cobra-coral

Micrurus filiformis (Günther, 1859)

Coral-verdadeira, coral ou cobra-coral

Micrurus frontalis (Duméril, Bibron & Duméril, 1854)

Coral-verdadeira, coral ou cobra-coral

Micrurus hemprichii (Jan, 1858)

Coral-verdadeira, coral ou cobra-coral

Micrurus ibiboboca (Merrem, 1820)

Coral-verdadeira, coral ou cobra-coral

Micrurus isozonus (Cope, 1860)

Coral-verdadeira, coral ou cobra-coral

Micrurus langsdorffii Wagler, 1824

Coral-verdadeira, coral ou cobra-coral

Micrurus lemniscatus (Linnaeus, 1758)

Coral-verdadeira, coral ou cobra-coral

Micrurus nattereri Schmidt, 1952

Coral-verdadeira, coral ou cobra-coral

Micrurus mipartitus (Duméril, Bibron & Duméril, 1854)

Coral-verdadeira, coral ou cobra-coral

Micrurus ornatissimus (Jan, 1858)

Coral-verdadeira, coral ou cobra-coral

Micrurus pacaraimae Carvalho, 2002

Coral-verdadeira, coral ou cobra-coral

Micrurus paraensis Cunha & Nascimento, 1973

Coral-verdadeira, coral ou cobra-coral

Micrurus potyguara Pires, Silva, Feitosa, Prudente, Pereira Filho & Zaher, 2014

Coral-verdadeira, coral ou cobra-coral

Micrurus psyches (Daudin, 1803)

Coral-verdadeira, coral ou cobra-coral

Micrurus putumayensis Lancini, 1962

Coral-verdadeira, coral ou cobra-coral

Micrurus pyrrhocryptus (Cope, 1862)

Coral-verdadeira, coral ou cobra-coral

Micrurus remotus Roze, 1987

Coral-verdadeira, coral ou cobra-coral

Micrurus silviae Di-Bernardo, Borges-Martins & Silva, 2007

Coral-verdadeira, coral ou cobra-coral

Micrurus spixii Wagler, 1824

Coral-verdadeira, coral ou cobra-coral

Micrurus surinamensis (Cuvier, 1817)

Coral-verdadeira, coral ou cobra-coral

Micrurus tricolor Hoge, 1956

Coral-verdadeira, coral ou cobra-coral

Figura 13. Coral-verdadeira (Micrurus corallinus) - Mata Atlântica (regiões sul, sudeste e nordeste e também no MS). Note que essa é uma espécie de coral que apresenta mônades (Sequência de um anel preto ao longo do corpo). Foto: Daniel Loebmann.

 

Figura 14. Coral-verdadeira (Micrurus frontalis) - Cerrado (TO, MT, MS, GO, DF, MG e SP). Note que essa é uma espécie de coral que apresenta tríades (Sequência de três anéis pretos ao longo do corpo). Foto: Sérgio Morato.

 

Figura 15. Coral-verdadeira (Micrurus ibiboboca) – Região nordeste. Foto: Willianilson Pessoa.

 

Figura 16. Coral-verdadeira (Micrurus altirostris) – Sul do Brasil. Foto: Arthur Abegg.

 

Figura 17. Coral-verdadeira (Micrurus decoratus) – Mata Atlântica (SC, PR, SP, RJ, MG e ES). Foto: Pedro Bernardo.

 

Figura 18. Coral-verdadeira (Micrurus surinamensis) – Amazônia e MT. Foto: Paulo Bernarde.

 

Figura 19. Coral-verdadeira (Micrurus averyi) – Amazônia (AM e PA). Foto: André Luiz Ferreira da Silva.

 

Figura 20. Coral-verdadeira (Micrurus hemprichii) – Amazônia. Foto: Paulo Bernarde.

 

Figura 21. Coral-verdadeira (Micrurus annellatus) – Amazônia (AC). Foto: Marco Antonio de Freitas.

 

Figura 22. Coral-verdadeira (Micrurus albicintus) – Amazônia (AM, RO e MT). Foto: Luiz Carlos Turci.

 

BIO-ECOLOGIA DAS CORAIS-VERDADEIRAS (ELAPIDAE)

    Habitat: ocorrem em florestas primárias e também em áreas alteradas (lavouras e pastagens), incluindo registros de algumas espécies (ex. Micrurus corallinus, M. lemniscatus e M. surinamensis) em áreas urbanas (Veja Sazima et al. 1995; Martins & Oliveira 1998; Bernarde & Abe 2006; Sawaya et al. 2008; Hartmann et al. 2009a; Hartmann et al. 2009b).
    Microhabitat: A maioria das espécies apresenta hábitos fossoriais e criptozóicos, eventualmente algumas são terrícolas e duas espécies (Micrurus lemniscatus e M. surinamensis) apresentam hábitos aquáticos (Figura 23).

Figura 23. Coral-verdadeira (Micrurus surinamensis) – Espécie de hábitos aquáticos e que se alimenta também de peixes. Note a posição dos olhos e das narinas localizadas mais dorsalmente em relação as outras corais. Foto: Renato Gaiga.


    Período de atividade: Noturnas e diurnas.
    Hábitos alimentares: Alimentam-se principalmente vertebrados alongados (serpentes, anfisbenas, lagartos e gimnofionos) (Figuras 24 e 25), mas também peixes (como tambuatá Callichthys, sarapó Gymnotus e muçum Symbranchus marmoratus, predados por Micrurus lemniscatus e M. surinamensis) e invertebrados onicóforos (registro para M. hemprichii) (Figura 26). Veja mais em: Marques & Sazima (1997), Martins & Oliveira (1998), Marques (2002), Maffei et al. (2009), Bernarde & Abe (2010), Silva et al. (2010), Souza et al. (2011).

Figura 24. Coral-verdadeira (Micrurus ibiboboca) alimentando-se de uma serpente (Tantilla melanocephala). Foto: Willianilson Pessoa.

 

Figura 25. Coral-verdadeira (Micrurus ibiboboca) alimentando-se de uma falsa-coral (Oxyrhopus trigeminus). Foto: Willianilson Pessoa.

 

Figura 26. Onicóforos - grupo de invertebrados que é predado pela coral-verdadeira (Micrurus hemprochii) na Amazônia. Fotos: Paulo Bernarde.


    Reprodução: Ovíparas, com o registro de dois até 15 ovos, que varia entre as espécies e o tamanho da serpente (Veja mais em Martins & Oliveira 1998; Marques (2002); Almeida-Santos et al. 2006; Marques et al. 2006; Marques et al. 2013). O combate entre machos pode ocorrer (Veja Almeida-Santos et al. 1998 e Marques et al. 2013).
    Comportamento de defesa: As corais-verdadeiras apresentam coloração aposemática (de advertência), alertando os predadores de seu perigo. Quando perturbadas (o comportamento pode variar dependendo da espécie), geralmente achatam o corpo dorsoventralmente e enrodilham a cauda, dando botes (falsos e verdadeiros) e também podem morder (Veja mais em Sazima & Abe 1991; Martins 1996; Martins & Oliveira 1998; Marques 2002) (Figuras 27 e 28).

Figura 27. Coral-verdadeira (Micrurus surinamensis) - Comportamento de defesa: achatando o corpo dorsoventralmente e exibindo a cauda. Foto: Paulo Bernarde.

 

Figura 28. Coral-verdadeira (Micrurus hemprichii) - Comportamento de defesa: exibindo a cauda e a cloaca. Foto: André Luiz Ferreira da Silva.
 

ACIDENTE ELAPÍDICO

    As corais-verdadeiras precisam morder para inocular o veneno e como apresentam boca e dentes inoculadores relativamente pequenos, a pessoa tem que estar descalça pisando sobre uma coral ou então a manuseando. As espécies em geral não são agressivas, causando menos de 1% dos acidentes ofídicos, entretanto, todo acidente elapídico deve ser considerado grave devido o risco de evolução para insuficiência respiratória.
SERPENTES CAUSADORAS: Pertencentes aos gêneros Micrurus e Leptomicrurus e conhecidas popularmente como corais, corais-verdadeiras ou cobras-corais.
DISTRIBUIÇÃO GEOGRÁFICA: Apresentam espécies por todo o Brasil.
ATIVIDADE PRINCIPAL DO VENENO: neurotóxica.
SINTOMAS DA VÍTIMA: dor local, parestesia (formigamento no local ou no membro que foi mordido), ptose palpebral, diplopia, sialorreia (abundância de salivação), dificuldade de deglutição e mastigação, dispneia. Casos graves podem evoluir para insuficiência respiratória.
 

AS FALSAS-CORAIS

    Aproximadamente 52 espécies de serpentes não peçonhentas apresentam o padrão coralino ou então a cor vermelha em sua coloração que a leva ser conhecida como coral, cobra-coral ou falsa-coral (por não ser peçonhenta) (Veja a Tabela 2; É apresentado links para fotografias de algumas espécies ao clicar sobre o nome científico da mesma).

    As falsas-corais estão agrupadas dentro das famílias Dipsadidae (49 espécies), Colubridae (Duas espécies: Simophis rhinostoma e Rhinobothryum lentiginosum) e Aniliidae (Anilius scytale). Elas apresentam padrões de coloração bem variado e em algumas a coloração vermelha está presente apenas nos indivíduos juvenis (Exemplo: Muçuranas).

    São chamadas de "falsas-corais" por não serem consideradas peçonhentas como as espécies de corais-verdadeira da família Elapidae. Algumas espécies apresentam a dentição áglifa (sem dentes inoculadores de veneno) e outras opistóglifas (dentes inoculadores localizados na região posterior da maxila superior). Algumas espécies são mansas, podendo ser manuseadas. Entretanto, algumas podem morder e também pelo fato de serem opistóglifas pode ocorrer casos de envenenamento. Geralmente os acidentes não são graves, mas se deve tomar cuidado pois algumas do gênero Phalotris podem causar acidentes mais sérios. Por isso é recomendado que as serpentes não sejam manuseadas indevidamente.

Tabela 2. Espécies de falsas-corais (Família Dipsadidae) do Brasil.

ESPÉCIE NOME POPULAR
Atractus elaps (Günther, 1858) Falsa-coral, coral ou cobra-coral
Atractus latifrons (Günther, 1868) Falsa-coral, coral ou cobra-coral
Atractus trihedrurus Amaral, 1926 Falsa-coral, coral ou cobra-coral
Atractus zebrinus (Jan, 1862) Falsa-coral, coral ou cobra-coral
Apostolepis albicollaris Lema, 2002 Falsa-coral, coral ou cobra-coral
Apostolepis ambiniger (Peters, 1869) Falsa-coral, coral ou cobra-coral
Apostolepis ammodites Ferrarezzi, Barbo & Albuquerque, 2005 Falsa-coral, coral ou cobra-coral
Apostolepis assimilis (Reinhardt, 1861) Falsa-coral, coral ou cobra-coral
Apostolepis cearensis Gomes, 1915 Falsa-coral, coral ou cobra-coral
Apostolepis dimidiata (Jan, 1862) Falsa-coral, coral ou cobra-coral
Apostolepis flavotorquata (Duméril, Bibron & Duméril, 1854) Falsa-coral, coral ou cobra-coral
Apostolepis polylepis Amaral, 1922 Falsa-coral, coral ou cobra-coral
Phalotris concolor Ferrarezzi, 1994 Falsa-coral, coral ou cobra-coral
Phalotris matogrossensis Lema, D’Agostini & Cappellari, 2005 Falsa-coral, coral ou cobra-coral
Phalotris mertensi (Hoge, 1955) Falsa-coral, coral ou cobra-coral
Phalotris nasutus (Gomes, 1915) Falsa-coral, coral ou cobra-coral
Phalotris tricolor (Duméril, Bibron & Duméril, 1854) Falsa-coral, coral ou cobra-coral
Hydrodynastes bicinctus (Herrmann, 1804) (Juvenil) Falsa-coral, coral ou cobra-coral
Hydrops martii (Wagler in Spix, 1824) Falsa-coral, coral ou cobra-coral
Hydrops triangularis (Wagler in Spix, 1824) Falsa-coral, coral ou cobra-coral
Boiruna maculata (Boulenger, 1896) (Juvenil) Falsa-coral, coral ou cobra-coral
Clelia clelia (Daudin, 1803) (Juvenil) Falsa-coral, coral ou cobra-coral
Clelia plumbea (Wied, 1820) (Juvenil) Falsa-coral, coral ou cobra-coral
Drepanoides anomalus (Jan, 1863) Falsa-coral, coral ou cobra-coral
Mussurana bicolor (Peracca, 1904) (Juvenil) Falsa-coral, coral ou cobra-coral
Mussurana montana (Franco, Marques & Puorto, 1997) (Juvenil) Falsa-coral, coral ou cobra-coral
Oxyrhopus clathratus Duméril, Bibron & Duméril, 1854 Falsa-coral, coral ou cobra-coral
Oxyrhopus formosus (Wied, 1820) Falsa-coral, coral ou cobra-coral
Oxyrhopus guibei Hoge & Romano, 1978 Falsa-coral, coral ou cobra-coral
Oxyrhopus melanogenys (Tschudi, 1845) Falsa-coral, coral ou cobra-coral
Oxyrhopus occipitalis Wagler in Spix, 1824 Falsa-coral, coral ou cobra-coral
Oxyrhopus petolarius (Linnaeus, 1758) Falsa-coral, coral ou cobra-coral
Oxyrhopus rhombifer Duméril, Bibron & Duméril, 1854 Falsa-coral, coral ou cobra-coral
Oxyrhopus trigeminus Duméril, Bibron & Duméril, 1854 Falsa-coral, coral ou cobra-coral
Oxyrhopus vanidicus Lynch, 2009 Falsa-coral, coral ou cobra-coral
Pseudoboa coronata Schneider, 1801 Falsa-coral, coral ou cobra-coral
Pseudoboa haasi (Boettger, 1905) (Juvenil) Falsa-coral, coral ou cobra-coral
Pseudoboa martinsi Zaher, Oliveira & Franco, 2008 Falsa-coral, coral ou cobra-coral
Pseudoboa neuwiedii (Duméril, Bibron & Duméril, 1854) Falsa-coral, coral ou cobra-coral
Pseudoboa nigra (Duméril, Bibron & Duméril, 1854) (Juvenil) Falsa-coral, coral ou cobra-coral
Siphlophis cervinus (Laurenti, 1768) Falsa-coral, coral ou cobra-coral
Siphlophis compressus (Daudin, 1803) Falsa-coral, coral ou cobra-coral
Siphlophis pulcher (Raddi, 1820) Falsa-coral, coral ou cobra-coral
Siphlophis worontzowi (Prado, 1940) Falsa-coral, coral ou cobra-coral
Erythrolamprus aesculapii (Linnaeus, 1766) Falsa-coral, coral ou cobra-coral
Erythrolamprus breviceps (Cope, 1860) Falsa-coral, coral ou cobra-coral
Erythrolamprus frenatus (Werner, 1909) Falsa-coral, coral ou cobra-coral
Erythrolamprus taeniogaster (Jan, 1863) Falsa-coral, coral ou cobra-coral
Xenodon matogrossensis (Scrocchi & Cruz, 1993) Falsa-coral, coral ou cobra-coral

 

    Os hábitos (substrato de atividade e dieta) são bem diversificados entre as espécies. É apresentado aqui algumas das mais comuns que são mais encontradas pela população em geral.

Falsa-coral (Erythrolamprus aesculapii)

Figura 29. Falsa-coral (Erythrolamprus aesculapii) - padrão de díades (sequência de dois anéis pretos ao longo do corpo). Foto: Daniella França.

     Espécie amplamente distribuída no Brasil, sendo comum em várias regiões. Apresenta atividade diurna e terrícola, os indivíduos adultos alimentan-se de outras cobras, enquanto que os juvenis predam pequenos lagartos (Marques & Puorto 1994). Apresenta dentição opistóglifa.

    Como forma de defesa pode achatar o corpo dorso-ventralmente e também enrodilhar a cauda (comportamento também realizado por corais-verdadeiras). Pode ser facilmente distinguida das corais-verdadeiras (Micrurus spp. que apresentam tríades ou mônades) por apresentar sequências de díades (dois anéis pretos ao longo do corpo) (Figura 29), entretanto, as populações na Mata Atlântica e no litoral apresentam indivíduos que os anéis pretos se fecham formando mônades (Figuras 30 e 31) e ficando muito parecidas com a coral-verdadeira Micrurus corallinus. Veja o artigo de Marques & Puorto (1991) sobre o mimetismo desta espécie de falsa-coral e de Marques (1996) sobre a reprodução.

Figura 30. Falsa-coral (Erythrolamprus aesculapii) - padrão de mônades (sequência de um anel preto ao longo do corpo). Note que neste exemplar na região caudal ainda existem algumas díades. Foto: Douglas Bete.

 

Falsas-corais do gênero Oxyrhopus.

    O gênero Oxyrhopus está representado por espécies em todas as regiões do país e são conhecidas como falsas-corais (também por coral e cobra-coral). Essas serpentes podem medir até pouco mais de 1 m, apresentando hábitos noturno e terrícola, alimentando-se principalmente lagartos e roedores (Martins & Oliveira 1998; Bernarde & Abe 2010). Geralmente mansas, apresentam dentição opistóglifa. Na Amazônia a mais comum é a Oxyrhopus melanogenys, enquanto que nas demais regiões são mais frequentes a Oxyrhopus guibei (Nesta, os anéis tendem a completar a volta do corpo a medida que a serpente vai crescendo e começa na região posterior em direção a anterior do corpo) e a O. trigeminus (Mesmo nos adultos a região ventral permanece clara).

Figura 31. Falsa-coral (Oxyrhopus guibei). Foto: Daniel Velho.

 

Figura 32. Falsa-coral (Oxyrhopus trigeminus). Foto: Daniella França.

 

Figura 33. Falsa-coral (Oxyrhopus melanogenys) - Amazônia. Foto: Saymon de Albuquerque.

 

Figura 34. Lado esquerdo: Falsa-coral (Oxyrhopus melanogenys) - Mímico. Lado Direito: Coral-verdadeira (Micrurus hemprichii) - Modelo. Espécimes da região de Manaus (AM). Fotos: André Luiz Ferreira da Silva.

 

Figura 35. Falsa-coral (Oxyrhopus occipitalis) - Amazônia. Foto: Paulo Bernarde.

 

Figura 36. Falsa-coral (Oxyrhopus formosus) - Amazônia. Foto: Saymon de Albuquerque.

 

Figura 37. Falsa-coral (Oxyrhopus rhombifer) - Cerrado. Foto: Paulo Bernarde.

 

Figura 38. Falsa-coral (Oxyrhopus petolarius). Foto: Paulo Bernarde.

 

Figura 39. Falsa-coral (Oxyrhopus vanidicus) - Amazônia. Foto: Paulo Bernarde.

 

OUTRAS FALSAS-CORAIS

Figura 40. Falsa-coral (Anilius scytale) - Amazônia. Foto: Marco Antônio de Freitas.

 

Figura 41. Falsa-coral (Apostolepis albicolaris) - Cerrado. Foto: Gabriel Horta.

 

Figura 42. Falsa-coral (Apostolepis ammodites) - Cerrado. Foto: Gabriel Horta.

 

Figura 43. Falsa-coral (Atractus latifrons) - Amazônia. Foto: Saymon de Albuquerque.

 

Figura 44. Falsa-coral (Atractus latifrons) - Amazônia. Mímico da Coral-verdadeira (Micrurus albicintus). Foto: Daniel Velho.

 

Figura 45. Juvenil de Muçurana (Clelia clelia) - Amazônia. Foto: Paulo Bernarde.

 

Figura 46. Falsa-coral (Drepanoides anomalus) - Amazônia. Foto: Paulo Bernarde.

 

Figura 47. Falsa-coral (Drepanoides anomalus) - Amazônia. Foto: Paulo Bernarde.

 

Figura 48. Juvenil de Hydrodynastes bicinctus - Amazônia. Foto: Paulo Bernarde.

 

Figura 49. Falsa-coral (Pseudoboa coronata) - Amazônia. Foto: Luiz Carlos Turci.

 

Figura 50. Falsa-coral (Simophis rhinostoma). Foto: Gabriel Horta.

 

Figura 51. Falsa-coral (Siphlophis cervinus) -  Amazônia. Foto: Paulo Bernarde.

 

Figura 52. Falsa-coral (Siphlophis compressus) - Amazônia e Mata Atlântica. Foto: Luiz Carlos Turci.

 

Figura 53. Falsa-coral (Siphlophis worontzowi) - Amazônia e Mata Atlântica. Foto: Luiz Carlos Turci.

 

Figura 54. Falsa-coral (Xenodon mattogrossensis) - Cerrado e Pantanal. Facilmente reconhecida pela presença de anéis pretos em dupla e o focinho pronunciado. Foto: Rafael Balestrin.

 

E ENTÃO?????

    Viu a quantidade de informações, de espécies de falsas-corais e de corais-verdadeiras?! Não dá para aplicarmos alguma regra ("macete") para diferenciar as corais peçonhentas das não peçonhentas. Você pode falar que dá pelo tipo de dentição. Sim, as verdadeiras são proteróglifas e as falsas são áglifas ou então opistóglifas. Mas isso implicaria em ter que manusear o animal e um potencial risco de envenenamento. Quem realmente trabalha com esses animais consegue reconhecer facilmente antes de coletá-la, mas quem não lida com esses bichos não tem a prática necessária e o conhecimento para fazer isso.

    Os especialistas (herpetólogos, técnicos em serpentários ou em laboratórios de ofiologia) lidam de forma constante com esses animais e assim adquirem certa experiência ao longo do tempo em reconhecer as espécies. Já quem não lida diariamente com serpentes apresenta uma maior chance de cometer equívocos e assim favorecer um acidente ofídico ao manusear uma cobra-coral. Além disso, algumas falsas-corais apresentam dentição opistóglifa e pode causar envenenamento quando manuseadas.

    Espero que tenha aprendido e gostado desta página. Se quiser aprofundar mais sobre esses animais visite a página sobre meus livros disponíveis para venda clicando na imagem abaixo.

 

Agradecimentos

Agradeço os amigos e colegas que colaboraram com suas fotografias para a elaboração desta página. Seus nomes estão nas legendas de suas respectivas imagens.

 

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