DENDROBATÍDEOS

 

Esses pequenos sapos coloridos são relativamente comuns em florestas especialmente na Amazônia e podem serem vistos durante o dia no chão ou na vegetação baixa. Suas cores sinalizam que apresentam veneno, podendo desencorajar o ataque de alguns predadores. Apresentam variados graus de cuidado parental (quando um ou ambos pais cuidam dos ovos ou dos girinos) e um modo reprodutivo com ovos terrestres e o transporte dos girinos até um ambiente aquático para completarem o desenvolvimento.

As espécies de anfíbios pertencentes a família Dendrobatidae são caracterizadas por geralmente apresentarem um colorido bem marcante (coloração aposemática), o qual está associado com a ocorrência de veneno (alcalóides) na pele.  Estas espécies apresentam uma pele rica em alcalóides que são substâncias farmacologicamente ativas e que os tornam venenosos, representando um rico potencial para descoberta de novos medicamentos para humanidade. Já foram descobertos mais de 200 alcalóides diferentes nos sapinhos desta família. Os alcalóides são obtidos através da alimentação de alguns artrópodos (ácaros e formigas) que alimentam-se de plantas que contém alcalóides. São poucos os animais que podem predar esses anfíbios.

Ameerega macero. Foto por Paulo S. Bernarde

Até o momento existem 180 espécies de dendrobatídeos conhecidas e essa família tem como distribuição desde a América Central até a região Sudeste no Brasil. Em nosso país a maior diversidade ocorre na Amazônia. No Brasil são 19 espécies conhecidas atualmente, sendo que duas delas, Ameerega berohoka e Ranitomeya toraro, foram descritas em 2011 para o estado de Goiás e Acre, respectivamente. Ainda é esperado o registro de mais espécies para o Brasil, assim como a descrição de outras dentro dessa família. Alguns lugares como o Parque Nacional da Serra do Divisor e a Reserva Extrativista Riozinho da Liberdade chegam a ter seis espécies de dendrobatídeos.

Adelphobates quinquevittatus. Foto por Paulo S. Bernarde.

Algumas espécies de dendrobatídeos são conhecidas como sapinhos-ponta-de-flecha ("dart poison frogs"). O nome popular deve-se ao fato de que os índios de uma tribo (Embera) na região de Chocó, na Colômbia, utilizam as toxinas de algumas espécies (Phyllobates terribilis) para envenenar a ponta dos dardos das zarabatanas utilizadas na caça. O cozimento destrói o veneno, tornando comestíveis as presas mortas por dardos impregnados com as secreções venenosas da pele desse anfíbio. Um único sapinho desta espécie pode conter ate 1900 microgramas de veneno (batracotoxina), e menos de 200 microgramas consiste provavelmente na dose letal para um ser humano. Contudo, para que ocorra o envenenamento, o sapinho deve ser ingerido pelo homem, para que o mesmo possa se envenenar. Alguns cientistas dizem que existe uma possibilidade da pessoa que manusear essa espécie sem a proteção de luvas se envenenar, especialmente caso a pessoa apresente algum ferimento na mão. Por isso, os índios os manuseiam cuidadosamente com folhas.

Ameerega trivittata soltando veneno pela pele. Foto por Paulo S. Bernarde.

As espécies apresentam atividade de vocalização durante o dia, com um maior pico durante o amanhecer e no entardecer, sendo de hábitos terrícolas (atividade no chão) ou arborícolas (atividade sobre a vegetação). Muitas são territorialistas e alguns machos chegam a atacar um gravador quando este toca o "playback" (repete seu canto gravado!). De noite repousam sobre a vegetação.

Ameerega picta com o saco vocal expandido durante vocalização. Foto por Paulo S. Bernarde.

Os ovos são terrestres e os girinos quando eclodem são transportados por um dos pais até um ambiente aquático (riachos, poças temporárias, bromélias, axilas de folhas, cavidades em árvores com água armazenada, cápsulas abertas de castanha-do-Pará), onde completam o desenvolvimento. As fêmeas de algumas espécies visitam periodicamente os girinos, depositando ovos não fertilizados para alimentá-los. Os girinos de algumas espécies (ex. Adelphobates castaneoticus) apresentam comportamento canibalístico, podendo predar girinos de sua própria espécie.

Ranitomeya toraro transportando girinos. Foto por Paulo S. Bernarde.

 

Ameerega picta transportando girinos. Foto por Paulo S. Bernarde.

 

 

Girino de Adelphobates quinquevittatus. Foto por Paulo S. Bernarde.

 

O potencial farmacológico do veneno dos dendrobatídeos e o colorido desses animais tornam esses anfíbios muito procurados e vítimas do tráfico de animais silvestres para serem vendidos e comercializados ilegalmente para fins de biopirataria e para serem criados como animais de estimação ("pets").

 

Adelphobates quinquevittatus. Foto por Paulo S. Bernarde.

 

Ameerega trivittata. Foto por Paulo S. Bernarde.

 

Ameerega trivittata. Foto por Paulo S. Bernarde.

 

Ranitomeya toraro. Foto por Paulo S. Bernarde.

 

Ranitomeya toraro. Foto por Paulo S. Bernarde.

 

Ameerega trivittata. Foto por Paulo S. Bernarde.

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Todas fotografias são de minha autoria (Paulo Sérgio Bernarde) Pictures by Paulo Sérgio Bernarde

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