DIVERSIDADE DE LAGARTOS DO BRASIL

    No Brasil são conhecidas aproximadamente 248 espécies de lagartos pertencentes à 14 famílias. Lagartos geralmente apresentam dois pares de patas e ocupam os mais variados ambientes e substratos, podendo ser terrícolas (atividade sobre o chão), arborícolas (sobre a vegetação), fossoriais (galerias no subsolo) e semi-aquáticos (ambientes aquáticos e adjacências).

Calango-verde (Ameiva ameiva) - espécie terrícola.

 

Calango-seringueiro (Plica plica) - espécie arborícola.

 

Bachia sp. - espécie fossorial.

Neusticurus juruazensis - espécie semi-aquática.

    Possivelmente a espécie mais conhecida no Brasil seja a lagartixa-da-parede (Hemidactylus mabouia), uma espécie exótica oriunda da África. O nome calango é utilizado para designar várias espécies, principalmente as pertencentes ao gênero Tropidurus, e calango-verde o Ameiva ameiva. Algumas espécies, como Iguana iguana, são criadas como pets, ainda que essa mesma espécie também seja alimento para alguns povos na Amazônia. A mais procurada para alimentação no Brasil é o teiú ou teju-açu (Salvator merianae) e outras espécies desse gênero). Víbora é o nome popular aplicado, no Pantanal, ao lagarto semi-aquático Dracaena paraguayensis, pois muitos pantaneiros acreditam que essa espécie seja venenosa. No continente Americano, lagartos peçonhentos ocorrem apenas na América Central e do Norte (monstro-de-Gila e lagarto-de-cuentas – gênero Heloderma), portanto, no Brasil não existem lagartos venenosos ou peçonhentos.

Camaleão ou Sinimbu (Iguana iguana).
 

Subordem Lacertilia ou Sauria (248 espécies)
 

Família Gekkonidae (6 espécies)
Gêneros Hemidactylus e Lygodactylus.
Distribuição: família com ampla distribuição no Brasil.
São lagartixas diurnas (Lygodactylus) e/ou noturnas (Hemidactylus), arborícolas ou terrícolas e ovíparas que se alimentam de artrópodes. Conhecidas popularmente como lagartixas, bibras e osgas. No Alto Juruá (Acre) Hemidactylus mabouia é chamada de víbora. A lagartixa-da-parede (H. mabouia) é uma espécie exótica, provavelmente introduzida através dos navios negreiros, que coloniza edificações, o que contribui para que seja a espécie mais amplamente distribuída dessa família. Durante a noite é comum observar H. mabouia nas residências, próximas a lâmpadas acesas que atraem insetos; assim como outros representantes da família, são capazes de produzir sons.


Lagartixa-da-parede (Hemidactylus mabouia).


Família Phyllodactylidae (12 espécies)
Gêneros Gymnodactylus, Homonota, Phyllopezus e Thecadactylus.
Distribuição: esta família está representada em vários biomas por todas as regiões do Brasil.
São pequenas lagartixas arborícolas (com exceção de Homonota, que é terrícola) e ovíparas que podem ser noturnas (como Phyllopezus e Thecadactylus) ou diurnas (como Gymnodactylus), e se alimentam de artrópodes.
 

Lagartixa (Thecadactylus solimoensis).


Família Sphaerodactylidae (17 espécies)
Gêneros Chatogekko, Coleodactylus, Gonatodes, Lepidoblepharis e Pseudogonatodes.
Distribuição: regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste.
São pequenas lagartixas terrícolas (como Chatogekko amazonicus e Pseudogonatodes guianensis) ou subarborícolas (como Gonatodes humeralis), diurnas, e ovíparas que se alimentam de artrópodes.

 

Chatogekko amazonicus.



Gonatodes hasemani.

 

Família Mabuyidae (14 espécies)
Gêneros Aspronema, Brasiliscincus, Copeoglossum, Exila, Manciola, Notomabuya, Panopa, Psychosaura, Psychosaura, Trachylepis e Varzea.
Distribuição: todo o Brasil.
São lagartos de pequeno tamanho, cobertos por escamas lisas (o que dá um aspecto brilhante ao animal), com patas reduzidas, pescoço pouco evidente, hábitos diurnos terrícolas ou subarborícolas, vivíparos e que se alimentam principalmente de artrópodes. Trachylepis atlantica, endêmica de Fernando de Noronha, poliniza uma espécie de árvore leguminosa ao visitar as flores em busca de néctar e água.
 

Calango-cobra (Copeoglossum nigropunctatum).

 

Família Dactyloidae (18 espécies)
Gêneros Dactyloa e Norops.
Distribuição: a família está representada na Amazônia e nas regiões Centro-Oeste, Nordeste e Sudeste.
As espécies dessa família são diurnas, alimentam-se de artrópodes e apresentam hábitos arborícolas e/ou subarborícolas. Os anoles possuem uma dobra gular colorida pode ser expandida e é usada em comunicações intra-específicas – essa característica também é utilizada na identificação das espécies. Os anoles são conhecidos como papa-ventos ou calanguinhos.

 

Dactyloa transversalis.

Norops nitens.

 

Família Hoplocercidae (3 espécies)
Gêneros Enyalioides e Hoplocercus.
Distribuição: oeste da Amazônia e região Centro-Oeste do Brasil.
São diurnos, ovíparos e alimentam-se de artrópodes. O gênero Enyalioides ocorre no oeste da Amazônia, nos estados do Acre, Amazonas e Rondônia, enquanto que Hoplocercus spinosus ocorre no Cerrado do Centro-Oeste e também em manchas desse bioma em Rondônia, Maranhão e sul do Pará. Enyalioides laticeps e E. palpebralis apresentam hábitos arborícolas e Hoplocercus spinosus  escava tocas em barrancos e, quando se refugia dentro delas, dobra a cauda espinhosa fechando a entrada da toca; os índios Kamaiurá chamam esta espécie de cuviara.

 

Enyalioides laticeps.

 

Enyalioides palpebralis.

                                    
Família Iguanidae (1 espécie)
Gênero Iguana.
Distribuição: Amazônia e regiões Centro-Oeste, Nordeste e Sudeste (norte de Minas Gerais).
Conhecido popularmente como camaleão (na Amazônia) ou sinimbu (no Pantanal), o Iguana iguana é um lagarto de grande tamanho (até 40 cm de comprimento rostro-cloacal que, incluindo a cauda, pode ultrapassar 1,5 m), heliotérmico, subarborícola e ovíparo, cujos adultos são herbívoros.



Sinimbu ou camaleão (Iguana iguana) - adulto.

 

Sinimbu ou camaleão (Iguana iguana) - juvenil.

 

Família Leiosauridae (13 espécies)
Gêneros Anisolepis, Enyalius, Leiosaurus e Urostrophus.
Distribuição: Amazônia (Rondônia, Pará, Maranhão e Mato Grosso), Caatinga, Mata Atlântica e regiões Centro-Oeste (Cerrado e florestas de galeria) e Sul do país.
Os representantes desta família são diurnos, ovíparos, alimentam-se de artrópodes e são principalmente arborícolas, embora algumas espécies forrageiam também no chão.
 

Família Liolaemidae (3 espécies)
Gênero Liolaemus.
Distribuição: regiões Sudeste (Rio de Janeiro) e Sul (Santa Catarina e Rio Grande do Sul).
São lagartos de hábitos terrícolas, diurnos e ovíparos que se alimentam principalmente de artrópodes. São conhecidas como lagartixas-de-areia ou de praia. Liolaemus occipitalis ocorre no litoral do Rio Grande do Sul até Santa Catarina, limite máximo de sua distribuição ao norte e está nas listas de espécies ameaçadas do Brasil, do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina. A lagartixa-de-areia Liolaemus arambarensis é endêmica do estado do Rio Grande do Sul, onde ocorre na Laguna dos Patos, de Viamão até São Lourenço do Sul. A lagartixa-de-areia Liolaemus lutzae é endêmica da costa do estado do Rio de Janeiro, mas recentemente foi propositadamente introduzida no litoral sul do estado do Espírito Santo; é considerada ameaçada de extinção.


Família Polychrotidae (3 espécies)
Gênero Polychrus.
Distribuição: a família está representada na Amazônia e nas regiões Centro-Oeste, Nordeste e Sudeste.
As espécies dessa família são diurnas, alimentam-se de artrópodes e apresentam hábitos arborícolas. São chamados em alguns lugares, como no interior de São Paulo, de lagartos-preguiça.
 


Lagarto-preguiça (Polychrus marmoratus).


Família Tropiduridae (35 espécies)
Gêneros Eurolophosaurus, Plica, Stenocercus, Strobilurus, Tropidurus, Uracentron e Uranoscodon.
Distribuição: família amplamente distribuída no Brasil.
Nessa família ocorrem desde espécies terrícolas e saxícolas (associadas a rochas) a subarborícolas e arborícolas. São lagartos diurnos e ovíparos que se alimentam principalmente de artrópodes, embora alguns sejam onívoros. São chamados de calangos (Tropidurus spp.) e tamacuaré (Uranoscodon superciliosus).

 


Calango (Plica umbra).
 


Calango (Stenocercus sinesaccus).
 


Calango (Tropidurus torquatus).

 

Tamacuaré (Uranoscodon superciliosus).
 

Família Diploglossidae (5 espécies)
Gênero Diploglossus e Ophiodes.
Distribuição: família presente na região Sul, Sudeste, Centro-Oeste, Caatinga e na Amazônia (Acre e Rondônia).
São lagartos de corpo cilíndrico e alongado, com acentuada redução ou ausência de membros, de hábitos terrícolas ou fossoriais, alimentando-se de artrópodos.
As espécies de Diploglossus são de hábitos secretivos e relativamente de difícil encontro, o que dificulta os estudos bio-ecológicos. Diploglossus lessonae ocorre na Caatinga, enquanto que D. fasciatus apresenta distribuição disjunta, ocorrendo na Mata Atlântica e no estado do Acre na Amazônia. Diploglossus lessonae é ovíparo, enquanto que o modo reprodutivo de D. fasciatus é desconhecido.
O gênero Ophiodes é composto por lagartos ápodos conhecidos popularmente como cobra-de-vidro ou quebra-quebra. Esses nomes populares se devem ao comportamento de autotomia caudal (romper a cauda) quando são atacados. As cobras-de-vidro (Ophiodes spp.) tem a distribuição considerada extra-amazônica, com um único registro em Cacoal, estado de Rondônia. Os lagartos Ophiodes são vivíparos. 
 

Família Gymnophthalmidae (84 espécies)
Gêneros Acratosaura, Alexandresaurus, Alopoglossus, Amapasaurus, Anotosaura, Arthrosaura, Bachia, Calyptommatus, Caparaonia, Cercosaura, Colobodactylus, Colobosaura, Colobosauroides, Dryadosaura, Ecpleopus, Gymnophthalmus, Heterodactylus, Iphisa, Leposoma, Marinussaurus, Micrablepharus, Neusticurus, Nothobachia, Placosoma, Procellosaurinus, Psilophthalmus, Ptychoglossus, Rhachysaurus, Scriptosaura, Stenolepis, Tretioscincus e Vanzosaura.
Distribuição: todo o Brasil.
Os lagartos desta família são também referidos, na literatura científica, como microteídeos, pois já foram classificados entre os Teiidae; em geral são de pequeno tamanho, ovíparos, diurnos, se alimentam de artrópodes e apresentam hábitos terrícolas, existindo também espécies fossoriais (como Bachia spp. e Notobachia spp.) e semi-aquáticas (como Neusticurus spp.). Alguns gêneros (como Bachia e Calyptommatus) tiveram redução parcial ou total das patas.
 


Cercosaura eigenmanni.
 


Cercosaura ocellata.

 

Micrablepharus maximiliani.
 


Família Teiidae (34 espécies)
Gêneros Ameiva, Ameivula, Cnemidophorus, Contomastix, Crocodilurus, Dracaena, Kentropyx, Salvator, Teius e Tupinambis.
Distribuição: todo o Brasil.
São lagartos diurnos de hábitos terrícolas (Ameiva, Cnemidophorus, Teius e Tupinambis), subarborícolas (Kentropyx) ou semi-aquáticos (Crocodilurus e Dracaena) e ovíparos, que se alimentam de artrópodes, embora algumas espécies sejam onívoras.
São conhecidos popularmente como calangos-verdes (Ameiva ameiva), jacareranas (Crocodilurus amazonicus) e jacuruxis (Dracaena guianensis) na Amazônia, víboras (D. paraguayensis) no Pantanal, e teiús, tejus, tejus-açus ou simplesmente lagartos (Tupinambis spp. e Salvator merianae) por todo o país. O lagarto generalista e onívoro teiú (Salvator merianae) é um potencial dispersor de sementes e também pode se alimentar de fungos.

 


Calango-verde (Ameiva ameiva).
 


Calango (Kentropyx pelviceps).

Lagarto-teju (Salvator merianae) - adulto.
 


Lagarto-teju (Salvator merianae) - juvenil.
 


Lagarto-teju (Tupinambis teguixin).

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Anfíbios e Répteis - Introdução ao estudo da herpetofauna brasileira.


 

Bibliografia consultada:

    AVILA-PIRES, T. C. S. 1995. Lizards of brazilian Amazonian (Reptilia: Squamata). Zool. Verh. Leiden 299:1-706. (Link)
    BERNARDE, P. S. 2012. Anfíbios e Répteis - Introdução ao estudo da herpetofauna brasileira. Anolis Books, Curitiba, 320p. (Link)
    BÉRNILS, R. S. & H. C. COSTA (orgs.). 2012. Brazilian reptiles – List of species. Disponível em http://www.sbherpetologia.org.br/. Sociedade Brasileira de Herpetologia. Acessado em 03/08/2013. (Link)
    NOVAES-E-SILVA, V. & ARAÚJO, A. F. B. 2008. Ecologia dos lagartos brasileiros. Technical Books Editora, Rio de Janeiro, 271p.
    VITT, L. J.; MAGNUSSON, W. E.; AVILA-PIRES, T. C. & LIMA, A. P. 2008. Guia de lagartos da Reserva Adolpho Ducke, Amazônia Central. Áttema Design Editorial, Manaus. (Link)

Todas fotografias são de minha autoria (Paulo Sérgio Bernarde) Pictures by Paulo Sérgio Bernarde

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