Mecanismos de defesa em Anfíbios e Répteis
 

    Os mecanismos de defesa aumentam a chance de um animal não ser predado e podem ser classificados em primários, aqueles que não dependem da presença do predador, e secundários, que se iniciam com a presença de um predador. Coloração críptica ou camuflagem (quando o animal apresenta coloração semelhante ao substrato onde vive) e mimetismo (quando o animal imita ou se parece com outra espécie) são exemplos de mecanismos de defesa primários, enquanto fuga e morder são exemplos de secundários.

Sapo-boi, Sapo-untanha ou Sapo-de-chifres (Ceratophrys cornuta) - Camuflagem.

 

Leptodactylus lineatus - Mímico de alguns dendrobatídeos.

 

Calango Plica umbra - Mordendo a mão do capturador.

 

    Anfíbios e Répteis apresentam vários tipos diferentes de comportamento de defesa e essas estratégias comportamentais são usadas nas diferentes fases da predação: localização (evitar ser encontrado), identificação (evitar ser reconhecido), aproximação (evitar ser capturado), subjugação (evitar de ser morto), ingestão (evitar ser engolido) e digestão (evitar ser digerido). Aqui são apresentados alguns exemplos.
    A camuflagem pode ser definida como uma estratégia de defesa em que o animal se parece com parte do ambiente quando visto por seu predador no lugar e horário em que está mais vulnerável à predação.

Perereca Hypsiboas cinerascens - Camuflagem.

 

Perereca Osteocephalus buckley - Camuflagem.

 

Sapo Rhinella margaritifera - Camuflagem.

 

Camaleão ou Sinimbu (Iguana iguana) - Camuflagem.

 

Calango-seringueiro (Plica plica) - Camuflagem.

 

Jararaca Bothrops atrox - Camuflagem.

    O calango Ameiva ameiva apresenta dois padrões de cores contrastantes no corpo (verde e marrom, possivelmente servindo de camuflagem quando explora as diferentes fisionomias dos ambientes em que vive.
 

Calango-verde (Ameiva ameiva) - Camuflagem.

    Interessante é o caso da perereca Hypsiboas prasinus (hilídeo da Mata Atlântica), onde os indivíduos mudam de cor ao longo do ano, ocorrendo maior quantidade de indivíduos verdes na estação chuvosa e de cor castanha no período da seca, em associação com os períodos de queda e brotamento das folhas na floresta.

    A ocorrência de dois padrões de coloração no corpo (e.g., cauda vermelha ou azul com tronco e cabeças marrons) de algumas espécies de lagartos (e.g., Colobosaura modesta e Micrablepharus spp.) também está associado a mecanismos de defesa: uma cauda mais chamativa direciona o ataque do predador visualmente orientado para ela, ao invés do restante do corpo – que contém órgãos mais vulneráveis.


Micrablepharus maximiliani - Espécie de lagarto do Cerrado que apresenta coloração da cauda distinta da restante do corpo.

    O lagarto Stenocercus fimbriatus de hábitos terrícolas (atividade no chão), fica quase imperceptível contra o fundo de folhas secas caídas no chão das florestas em que ocorre no Oeste da Amazônia. Stenocercus fimbriatus ainda se parece com alguns grilos (Orthoptera: Gryllidae: Eneopteriginae) que são comuns onde ele ocorre (Avila-Pires 1995).
 

Lagarto Stenocercus fimbriatus - Camuflagem e mimetismo.


    Coloração aposemática (ou de advertência) é a presença de cores contrastantes e conspícuas geralmente relacionadas com a presença de algum atributo perigoso no animal (toxinas na pele, capacidade de inocular veneno, etc). Exemplo as corais-verdadeiras e os anuros dendrobatídeos. A coloração aposemática também pode estar confinada a apenas algumas partes do corpo do animal (exemplos: os anfíbios Phyllomedusa tomopterna, Edalorhina perezi e Eupemphyx nattereri).

Dendrobatídeo Adelphobates quinquevittatus - Aposematismo.

 

Dendrobatídeo Ameerega macero - Aposematismo.

 

Coral-verdadeira (Micrurus lemniscatus) - Aposematismo.

 

Rãzinha Edalorhina perezi - Aposematismo (Exibição dessas manchas ocelares posteriores).

 

Perereca Phyllomedusa tomopterna - Aposematismo (região lateral alaranjada do corpo).

    
    Algumas estruturas tegumentares, como cristas irregulares e processos supraciliares, parecem estar associadas com contornos disruptivos que podem auxiliar no disfarce do animal. Exemplos são os anfíbios anuros Hemiphractus spp. e Rhinella marina e o lagarto Enyalioides palpebralis.

Anfíbio Hemiphractus scutatus - Forma do corpo.

 

Sapo Rhinella margaritifera - Forma do corpo.

 

Lagarto Enyalioides palpebralis - Forma do corpo.

 

    A produção de secreção ocorre em alguns anuros quando ameaçados ou capturados, podendo ser nociva, adesiva e odorífera; exemplos: Ameerega trivittata (Dendrobatidae), Phyllomedusa bicolor, Trachycephalus spp. (Hylidae) e Rhaebo guttatus (Bufonidae).

Dendrobatídeo Ameerega trivittata - Secreção de veneno durante o manuseio.

 

Perereca Trachycephalus typhonius - Secreção de veneno durante o manuseio.

 

    O sapo amazônico Rhaebo guttatus pode esguichar jatos de veneno de suas glândulas paratóides por até dois metros de distância quando perturbado (Jared et al. 2011).

Sapo Rhaebo guttatus - Secreção de veneno pela glândula paratóide direita. O indivíduo não havia sido tocado. A secreção teve início apenas pela presença do observador (potencial predador).

 

Sapo-cururu (Rhinella marina) - Apresenta veneno na glândula paratóide, que é um mecanismo passivo de defesa.

 

Rã-pimenta (Leptodactylus labyrinthicus) - Liberar uma substância que causa irritação quando entra em contato com os olhos, e nas narinas causa espirros.

   
    O microhilídeo Chiasmocleis ventrimaculata, na Amazônia peruana, ocupa a mesma toca que a aranha caranguejeira Xenesthis immanis (Theraphosidae) (Cocroft & Hambler 2006), que preda outras espécies de anuros; provavelmente os indivíduos de C. ventrimaculata produzem alguma defesa química que impede sua predação e, assim, vivem numa forma de comensalismo com essa grande caranguejeira (corpo de 6 a 7 cm).

Sapinho Chiasmocleis ventrimaculata.

 

    Outro tipo de associação com artrópodes é visto em Leptodactylus lineatus, que se reproduz dentro de formigueiros de cortadeiras do gênero Atta (Formicidae); observações feitas por Schlüter et al. (2009) revelaram que o anuro não come as formigas e nem é atacado por elas, mas preda um percevejo do gênero Heza (Reduviidae), inimigo natural das saúvas. É possível que o odor que esse anfíbio exala seja uma defesa contra o ataque das formigas e L. lineatus encontra abrigo contra predadores e condições microclimáticas adequadas para a reprodução dentro dos formigueiros.

Leptodactylus lineatus.

 

        A pressão de predadores terrestres no chão de florestas na Amazônia pode estar associada com várias espécies de lagartos e de serpentes diurnas dormirem de noite sobre a vegetação (ver Martins 1993).

Lagarto Norops fuscoauratus dormindo sobre a vegetação de noite.

 

Lagarto Dactyloa punctata dormindo sobre a vegetação de noite.

 

    Um caso interessante que pode estar envolvido como uma forma de evitar predadores é o da perereca-de-marsúpio Gastrotheca microdisca (Hemiphractidae), que ocorre na Mata Atlântica; os machos possuem canto parecido com o da ave araponga (Procnias nudicollis), o que levanta a possibilidade deles conseguirem confundir eventuais predadores diurnos durante o período de atividade de vocalização – mas essa hipótese ainda precisa ser testada (Veja aqui: Ferreiros da Mata Atlântica).

    O nome tanatose vem do deus grego da morte, Thanatos. Nesse comportamento de defesa, registrado para várias espécies pertencentes a diferentes famílias de anfíbios anuros e também em lagartos e serpentes, o animal se finge de morto.

Edalorhina perezi - Tanatose.

 

Perereca Phyllomedusa tomopterna - Tanatose.

 

    O chamado canto de agonia (distress call) é o tipo de vocalização defensiva mais comum entre os anuros, ocorrendo em várias espécies de diferentes famílias (e.g., Aplastodiscus leucopygius, Ceratophrys joazeirensis, Hypsiboas faber, Leptodactylus fuscus). Quando capturado, o anuro emite um canto diferente do usual (de advertência, para atrair fêmeas) e esse som diferente pode distrair ou confundir o predador.

 

    Autotomizar a cauda (habilidade de soltar a cauda quando capturado por um predador) é uma forma de fugir de predadores utilizada por várias espécies de lagartos. A cauda rompida fica movimentando-se ainda por um tempo, o que contribui para distrair o predador e ajudar o lagarto a escapar. A regeneração da cauda ocorre em várias espécies, mas durante esse tempo o animal deve arcar com alguns custos, como redução no crescimento do corpo e diminuição da capacidade de locomoção ou até menor sucesso reprodutivo. As espécies de cobra-de-vidro ou quebra-quebra (Ophiodes) levam esse nome popular justamente pelo comportamento de soltar a cauda quando agredidas. Os lagartos Iguana iguana e Tupinambis spp. não rompem a cauda, mas podem usá-la como defesa “chicoteando” (dando golpes laterais) o agressor.


Lagartixa Thecadactylus solimoensis com cauda regenerada após autotomia caudal.

 

Alguns mecanismos de defesa em Répteis Squamata em resposta a presença de potencial predador:

Lagarto Enyalioides palpebralis abrindo a boca como ameaça.

 

Lagarto Enyalioides palpebralis mordendo.

 


Lagarto Anolis nitens tandai expandindo a região gular azul e abrindo a boca.

 



Coral-verdadeira (Micrurus surinamensis) achatando o corpo dorsoventralmente e exibindo a cauda.

 



Caninana (Spilotes pullatus) – achatamento lateral com região gular inflada.



Cobra-cipó (Chironius laurenti) – triangulação da cabeça.



Jiboia (Boa constrictor) – fazendo “S” com o pescoço.



Surucucu-pico-de-jaca (Lachesis muta) – fazendo “S” com o pescoço e pronta para o bote.



Cobra-cipó (Leptophis ahaetulla) – fazendo “S” com o pescoço, com a boca escancarada.



Papagaia (Oxybelis fulgidus) – achatamento lateral e boca escancarada.

 

Saiba mais sobre esses animais no Livro

Anfíbios e Répteis - Introdução ao estudo da herpetofauna brasileira.


 

Bibliografia consultada:

     BERNARDE, P. S. 2012. Anfíbios e Répteis - Introdução ao estudo da herpetofauna brasileira. Anolis Books, Curitiba, 320p. (Link)

Todas fotografias são de minha autoria (Paulo Sérgio Bernarde) Pictures by Paulo Sérgio Bernarde

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